Show de Truman, Matrix ou a nossa vida?

A otimização sempre fez parte das metas das corporações de qualquer segmento e porte, e até mesmo da natureza humana. Todos buscamos ser assertivos para conquistar o máximo retorno com o menor esforço. No segmento publicitário sempre se falou muito a respeito, mais do que se conseguiu gerar de ações segmentadas com grande personalização, na proporção one too one. Mas, nos últimos anos, graças a evolução tecnológica, a publicidade passou a conseguir transformar esse discurso em realidade e realizar ações que levem informação de maneira individual, personalizada. Sem dúvida esses são recursos magníficos, que geram benefícios a todos os envolvidos.

As empresas, por exemplo, fazem menos esforços e investimentos para atingir o seu target, os veículos que trabalham com comunicação segmentada e mais assertiva podem cobrar mais pelos anúncios, a audiência passa a não se incomodar tanto com a intervenção publicitária sem contexto e recebe mídia quase como se fosse conteúdo, serviço, de tão relevante que é para si. Já as empresas ligadas a publicidade, como as agências e empresas de “marketing services”, podem criar mais serviços e assim aumentar a sua oferta de produtos e a performance nas campanhas. Apesar de fazer parte desse mercado, justamente em uma agência e uma empresa de marketing services, às vezes me questiono sobre as consequências, a longo prazo, de tudo isso. Hoje, quando você vai fazer uma busca em qualquer site, até mesmo no Google, você nem digitou a frase completa e o sistema já te sugere qual seria o seu desejo. Isso acontece com base no histórico de busca orgânica da rede, ou seja, o sistema lhe induz a buscar algo que não precisamente era a sua ideia inicial. Depois os resultados aparecem ordenados de acordo com diversos fatores, como conteúdo mais popular, o meio utilizado para efetuar as buscas (um computador, um celular), se você estiver logado, os resultados surgem de acordo com seu histórico de preferências ou até cookies da sua máquina.

Há muitos anos existe no browser um recurso chamado Favoritos. Lá você pode salvar os sites que mais acessa e, assim, diariamente acaba por também sempre entrar nos mesmos sites. Nas redes sociais e por meio de feeds você segue algumas pessoas e temas, que normalmente possuem afinidades com você. Com isso, você se torna leitor mais uma vez das mesmas fontes de informação. Quando navegamos pela web, a publicidade exibida atualmente é, em partes, já personalizada de acordo com os seus hábitos e histórico de navegação. Você acaba vendo, por exemplo, banners com os mesmos produtos que visitou em lojas virtuais nos últimos dias, conteúdos relacionados a sua geolocalização, suas intenções de compra, perfil, uma série de variáveis e a tendência é que isso se torne cada vez maior. Não será diferente com as mídias em televisão, outdoor e indoor. Quando você escuta música em diversos aparelhos, como Ipod ou até em sites, um algoritmo sugere para você quais são as músicas que provavelmente você irá gostar por se assemelharem a outras que escutou ou a pessoas com o mesmo perfil que o seu. Algumas pessoas utilizam sites de relacionamento para encontrar parceiros e amigos que também se baseiam no seu perfil e características. Por mais que vivamos em um mundo globalizado, com uma imensidão de informações, sem querer somos capturados e trancados dentro de clusters onde poucas informações ficam girando e nos perseguindo ativamente, tirando a nossa espontaneidade e a chance de mudarmos mais rapidamente e absorvermos informações completamente diferentes. Inicialmente isso parece confortável. Porém, para quem tem mais de 30 anos e absorveu informações antes dessas influências, pode ser que a pessoa ainda tenha registros que façam com que ela consiga sair dessa cluster, box, shoal box, e continuar buscando informações fora. No entanto, como ficará uma criança que cresce nesse cenário? Sinto que passaremos a viver em um Show de Truman, onde tudo é manipulado para que você tenha conforto, mas talvez isso não seja real e pode torná-lo alguém menos espontâneo, menos irreverente e, diria até, menos criativo por viver em um ambiente tão homogêneo.

Ainda acredito que tudo tende a evoluir e algumas pequenas ações, como o compartilhamento de conteúdo em redes sociais – onde propagamos um conteúdo recebido dos amigos – pode ser um indício de uma evolução positiva, já que assim a rede pode ajudar a corrigir a falta de novas visões e trazer diversos pequenos feixes de luz para essa caixa fechada. Isso também só funciona enquanto o usuário, que é o filtro que decide o que propagar, ainda não se tornou uma pessoa totalmente alienada, que fica propagando sempre os mesmos temas e visões. No futuro talvez teremos movimentos de usuários que não querem viver nesse universo e desejam viver à moda antiga, como a parte ativa da história, tendo poder de escolher e selecionar o que é ou não relevante, formando então um novo cluster. Tão igual, existem hoje movimentos e atividades ligados a Slow Food.

Uma indicação disso já é o http://disconnect.me, que propõe a navegação de forma limpa, sem personalização. Eu acredito que o melhor modelo seja o da transparência. Uma realidade em que o usuário possa escolher o que quer manter filtrado automaticamente e o que não deseja, em que decida através de bases centrais quais são os seus dados de perfil que deseja compartilhar e com poder de mudá-los ou até excluí-los a qualquer momento, de ligar ou desligar as personalizações de forma individual, pois frentes radicais também não agradam por deixar os usuários sem os benefícios que são trazidos e ajudam sim a reduzir um pouco a ansiedade que temos por absorver cada vez mais conhecimento em menos tempo, com direcionamento e foco, principalmente na web, que é um organismo com um volume gigante de dados completamente desestruturado.

David Reck é diretor da Enken Comunicação Digital, especialista em comunicação, marketing e propaganda online. Já liderou mais de 300 projetos digitais e está à frente de projetos para empresas como Gafisa, Citizen, Grupo Santa Joana, Livraria Saraiva,Trifil, entre outras .

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